Povos originários do sudoeste da Bolívia, onde se localiza o maior depósito de lítio do país, solicitaram ao Governo de Rodrigo Paz que os projetos de exploração incluam estudos de impacto ambiental e a consulta prévia livre e informada.
O pedido busca garantir que as iniciativas não gerem efeitos negativos na região e que as comunidades sejam reconhecidas como atores centrais na tomada de decisões.
A reivindicação foi formalizada em um projeto de lei elaborado por autoridades da província Nor Lípez, no departamento de Potosí. “Queremos saber o que nos espera daqui a dez anos”, expressou Iván Calcina, secretário-geral da Central Única Provincial de Comunidades Originárias.
Preocupações ambientais e sociais
Segundo Calcina, são 14 comunidades que habitam ao redor do salar de Uyuni e que poderiam ser diretamente afetadas pela escassez de água e outros impactos ambientais derivados da exploração e industrialização do lítio.
A principal demanda é contar com um estudo hidrológico que avalie os riscos para a região e para o país como um todo.
A preocupação surge após os contratos assinados pelo Governo de Luis Arce (2020-2025) com empresas da China e Rússia para aplicar a tecnologia de extração direta de lítio (EDL).
Esses projetos, com investimentos previstos de mais de 2.000 milhões de dólares, foram questionados por carecerem de estudos ambientais e de processos de consulta prévia, como exige a normativa boliviana.

Críticas a projetos anteriores
Especialistas em energia concordaram que as iniciativas das empresas estrangeiras “não tinham bases sólidas sobre o impacto ambiental”, o que poderia gerar consequências graves para as comunidades locais.
Durante a gestão de Arce, estimou-se que as reservas de lítio nos salares bolivianos alcançavam os 23 milhões de toneladas, a maioria em Uyuni, uma área de 10.000 km² que além disso constitui um dos principais atrativos turísticos do país.
Em dezembro de 2023, foi inaugurado ali um complexo industrial estatal com capacidade para produzir 15.000 toneladas anuais de carbonato de lítio mediante piscinas de evaporação. No entanto, a planta, localizada no município de Colcha K, operou com menos de 20% de sua capacidade e apresentou defeitos de design. O investimento inicial foi de 96 milhões de dólares.
A “era do lítio” e seus tropeços
O projeto havia sido iniciado pelo Governo de Evo Morales (2006-2019) e continuado por Arce, que anunciou em 2023 o início da “era do lítio”. No entanto, os resultados ficaram longe das expectativas.
O atual presidente Rodrigo Paz, que assumiu em novembro de 2025, denunciou que nas gestões anteriores “roubaram o lítio” pela falta de avanços concretos na exploração e industrialização. Paz assegurou que seu Governo trabalhará em soluções reais para o setor.
Expectativas das comunidades
Iván Calcina expressou que esperam que o projeto de lei elaborado junto a outras autoridades indígenas seja considerado pelo Governo. “Queremos que nos levem em conta nas decisões e nos proteger dos impactos ambientais”, afirmou.
A reivindicação das comunidades indígenas de Nor Lípez coloca no centro do debate a necessidade de compatibilizar a exploração do lítio com a proteção ambiental e os direitos dos povos originários. A consulta prévia e os estudos técnicos aparecem como condições indispensáveis para avançar em direção a um modelo de desenvolvimento que não repita os erros do passado.



