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Agrotóxicos de alta peligrosidad para muitas mulheres das zonas agrícolas do Vale de Autlán, em Jalisco, México, é uma cena comum ver seus filhos voltarem do campo com irritações, dor de cabeça, náuseas e vômitos devido ao uso de agrotóxicos, uma prática comum em toda a América Latina que carece de medidas para evitá-la.
“Depois de pulverizar, meu filho [de 16 anos] chegou com dor de cabeça e vômito (…) quando ele pulveriza, só usa um lenço [uma máscara caseira de pano] para cobrir o nariz e a boca”, conta Lidia Morales, uma mulher indígena de Guerrero que se mudou há quase uma década para a comunidade agrícola de El Mentidero, em Autlán, em busca de melhores rendimentos para sua família trabalhando no campo.
Jalisco é promovido como o “gigante agroalimentar do México” por seu liderança na produção de cultivos como abacate, cana-de-açúcar, framboesa e amora.
Mas também é líder em outro aspecto: as intoxicações por agrotóxicos de alta periculosidade. Segundo dados da Secretaria de Saúde, em 2024 registrou 72 casos, e até abril deste ano já somava 62.
Rodolfo González Figueroa, agroecólogo e promotor de processos agroecológicos na região, afirma que o número real é muito maior. Ele calcula que mais de 70% dos casos não chegam a receber atenção médica. “Se fossem registrados, o número seria alarmante“, observa.
Trabalhadores informais expostos aos agroquímicos de alta periculosidade
Mas em El Mentidero, assim como em muitas outras zonas agrícolas, vivem trabalhadores informais sem acesso a seguridade social. Por isso, as intoxicações por agrotóxicos de alta periculosidade são tratadas em casa. As mulheres estão acostumadas a usar leite ou limão para aliviar os sintomas.
“A intoxicação passa, e no dia seguinte já estão de volta no campo, trabalhando e pulverizando novamente“, relata Alma Cisneros, outra mãe de família de El Mentidero. Seu marido faleceu algumas semanas atrás devido a uma intoxicação relacionada ao uso de Lannate, um potente inseticida que mata larvas e insetos sugadores de cultivos.
O que acontece em El Mentidero de intoxicações por agrotóxicos de alta periculosidade se repete em inúmeras zonas rurais da região, onde adolescentes, crianças e até bebês estão expostos diariamente aos agrotóxicos, incluindo os de alta periculosidade, seja porque trabalham, vivem ou estudam junto às áreas de pulverização, ou porque entram em contato com esses resíduos dentro de suas próprias casas, ao comer, beber ou brincar.
“Não há escapatória, os estudos mostram que há rastros de agrotóxicos em todo o ambiente”, disse à SciDev.Net Cecilia Gargano, especialista em conflitos socioambientais e pesquisadora da Universidade Nacional de San Martín, na Argentina.
Embora não existam números oficiais sobre a quantidade de menores expostos a agrotóxicos de alta periculosidade, estima-se que possam ser milhões, considerando o número de crianças e adolescentes que trabalham no campo.
Crianças que trabalham no campo
Em seu relatório de 2024, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostra que, na América Latina e no Caribe, há 7,3 milhões de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos que trabalham, e 46% deles o faz em atividades agrícolas, classificadas pela própria OIT como perigosas, em parte devido ao uso de substâncias tóxicas.
A participação de crianças e jovens no trabalho agrícola não é nova. Mas o que alguns especialistas consideram revelador – e preocupante – é que os perigos enfrentados pelas infâncias devido ao uso de pesticidas e herbicidas configuram uma crise de saúde pública que “estamos ignorando coletivamente”.
Assim descreve um grupo de pesquisadores do Brasil, Costa Rica, Chile e México em um artigo de discussão publicado
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