Em linha com a polêmica medida que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, definiu na semana passada, o governo de Javier Milei analisa o abandono de organismos internacionais.
Em particular, os Estados Unidos ordenaram a saída de 66 entidades multilaterais, muitas delas vinculadas à Organização das Nações Unidas (ONU).
Agora, após essa decisão e de acordo com seu alinhamento com a gestão trumpista, a Argentina não descarta seguir os passos dos Estados Unidos.
Essa possibilidade, confirmada por altos funcionários a diversos meios nacionais, encontra-se sob estudo na Chancelaria a cargo de Pablo Quirno.
A decisão do mandatário estadunidense, anunciada no passado 7 de janeiro, alcançou organismos multilaterais com agendas consideradas “hostis” ou “ineficazes” pela Casa Branca.
Entre eles figuram entidades chave que trabalham sobre a mudança climática e o cuidado do meio ambiente, o desenvolvimento integral ou a igualdade de gênero.

Trump dá as costas à ONU, Milei celebra
A notícia do abandono de organismos internacionais por parte de Trump gerou até celebrações em Balcarce 50.
O mais chamativo foi o do assessor presidencial Santiago Caputo, que compartilhou a decisão nas redes sociais.
Lá, sublinhou: “O mundo está mudando radicalmente e, desta vez, a Argentina é protagonista graças à liderança de Javier G. Milei”.
Alguns dias depois, Caputo proclamou que “a era do multilateralismo acabou“.
Em linha com a posição geopolítica de Milei, outros funcionários também ratificaram o apoio “a tudo que fizerem os Estados Unidos“.
O precedente de abandono de organismos internacionais da Argentina
A Argentina já marcou um precedente similar em fevereiro de 2025, quando o Governo anunciou que replicaria o abandono de organismos internacionais estadunidense ao se retirar da Organização Mundial da Saúde (OMS).
A medida foi justificada nas “profundas diferenças em relação à gestão sanitária durante a pandemia do COVID-19“, segundo expressou o então porta-voz presidencial, Manuel Adorni.
“É urgente repensar desde a comunidade internacional para que existem organismos supranacionais, financiados por todos, que não cumprem com os objetivos para os quais foram criados”, destacou o Gabinete do Presidente naquela ocasião.

Análise na Chancelaria
Um alto funcionário do Governo confirmou ao MDZ que a Chancelaria analisa todas as implicações que teria para o país proceder com o abandono de organismos internacionais.
“Tudo será avaliado”, assinalaram no Ministério das Relações Exteriores.
“Não acreditamos em organismos de governança mundial. Se queremos ser um país verdadeiramente soberano, não deveríamos nos reger por outra lei além da nossa”, enfatizou a fonte oficial.
No entanto, o abandono de organismos internacionais não é simples para a Argentina.
De acordo com a explicação oficialista, dado o funcionamento dos vigentes mecanismos internacionais, retirar-se pode ter consequências prejudiciais para o país.
As principais dificuldades incluem:
- Perda de acesso a créditos do BID por ausência em comissões da ONU
- Menor influência em decisões internacionais sobre temas ambientais
- Riscos de isolamento diplomático em fóruns multilaterais
- Dependência das relações internacionais para financiamento

“Vivemos em um mundo colonizado pela China via ONU. Você sai e depois não pode tomar um crédito no BID porque não está em uma comissão qualquer da ONU”, exemplificou um membro da mesa pequena do presidente.
No entanto, a mesma fonte reconheceu ao MDZ as limitações do país: “Nós não somos os Estados Unidos, não é tão fácil”.
A posição de Milei contra a agenda ambiental
Milei manifestou-se em reiteradas oportunidades contra a denominada “agenda woke“, a Agenda 2030 e bandeiras como a luta contra a mudança climática e a igualdade de gênero, que definiu como “invenções do socialismo“.
O presidente retomará esses temas na próxima quarta-feira durante sua intervenção no Fórum de Davos, onde voltará à carga contra a “agenda woke” e o socialismo internacional.
Embora um eventual abandono de organismos internacionais por parte da Argentina não pareça destinado a concretizar-se no futuro imediato, está definitivamente na mente do oficialismo, que mantém seu alinhamento total com a administração Trump.



