O problema verde da China: plantou 78 bilhões de árvores para salvar o solo, mas agora geram secas

Através de um extenso plano de reflorestamento, China conseguiu frear o avanço da desertificação do solo plantando milhares de milhões de árvores.

É que, desde 1981, foram plantadas 78.000 milhões de árvores no que se chama a “Grande Muralha Verde” das Três Regiões do Norte, entre outros projetos.

O objetivo era combater a erosão do solo e reduzir as tempestades de areia provenientes do deserto.

No entanto, mais de 40 anos depois, um estudo revelou que esta massiva intervenção agora tem um efeito secundário negativo.

Aparentemente, este “Cinturão Florestal” alterou os padrões de precipitações e agora provoca escassez hídrica nas zonas onde vive quase metade da população.

O projeto, segundo anunciou a imprensa estatal chinesa no ano passado, foi finalmente concluído em 2025, mas preocupa seu impacto em secas.

La Gran Muralla Verde de árboles de China. FUENTE Xinhua
A Grande Muralha Verde de árvores da China. FONTE Xinhua

A China mostra o problema oculto de plantar demasiadas árvores

A Grande Muralha Verde da China tem árvores plantadas em uma superfície de 116.000 milhas quadradas.

Graças a este projeto, a cobertura florestal do país passou de 10% em 1949 para aproximadamente 25% em 2024.

No entanto, um novo estudo publicado na revista Earth’s Future revelou consequências imprevistas para a distribuição da água.

Isso foi descoberto por cientistas da Universidade de Tianjin, da Universidade Agrícola da China em Pequim e da Universidade de Utrecht.

Aparentemente, entre 2001 e 2020 o aumento da vegetação reduziu os recursos hídricos.

Essa redução afetou tanto a região oriental influenciada pela monção quanto a região árida do noroeste.

Essas zonas representam aproximadamente 74% da superfície total do país, segundo reportou Live Science.

Isso se deve ao fato de que os esforços de reverdecimento como a Grande Muralha Verde, entre outros, aumentaram a evapotranspiração.

Este termo combina evaporação e transpiração, o processo pelo qual as plantas liberam vapor de água através de pequenos poros conhecidos como estômatos.

O estudo também analisou outras iniciativas de plantio:

  • Programa Grain for Green (iniciado em 1999)
  • Programa de Proteção das Florestas Naturais (iniciado em 1999)
  • Cinturão Florestal das Três Regiões do Norte (desde 1978)
La Gran Muralla Verde de árboles de China
A Grande Muralha Verde de árvores da China

Na China, a umidade se deslocou

“Essas mudanças provocaram alterações nas precipitações, direcionando mais umidade para o planalto tibetano, que registrou um aumento da disponibilidade de água“, escreveram os autores do estudo.

“Em contrapartida, o leste e o noroeste da China experimentaram uma diminuição da disponibilidade hídrica por mais árvores, sendo o noroeste a região mais prejudicada devido ao importante deslocamento de umidade para o planalto tibetano”, acrescentaram os pesquisadores.

Os autores apontaram que determinadas transições entre zonas influenciaram a ritmos distintos na evapotranspiração, nas precipitações e na disponibilidade de água.

A transformação de pastagens em florestas aumentou a evapotranspiração e as precipitações.

Mas essa transformação teve um impacto negativo na disponibilidade de água.

Hoje, a disponibilidade de água na China não está distribuída de forma equilibrada em relação à sua população.

As regiões do norte concentram aproximadamente 46% da população e mais da metade das terras cultiváveis, mas só dispõem de 20% dos recursos hídricos, segundo o estudo.

Os autores sustentam que esses ciclos hidrológicos alterados devem ser levados em conta na hora de planejar futuras estratégias de reflorestamento no país.

“Nossos achados destacam que as mudanças na cobertura do solo podem redistribuir os recursos hídricos entre regiões“, concluíram os autores.

“Compreender esses efeitos é fundamental para planejar uma gestão sustentável do território e da água na China”, acrescentaram os pesquisadores.

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