Todos os anos, milhões de aves atravessam continentes inteiros em busca de alimento, abrigo e condições adequadas para se reproduzirem. No âmbito do Dia Mundial das Aves Migratórias, uma pesquisa realizada entre Argentina e Estados Unidos permitiu conhecer em detalhe o extraordinário percurso do fiofío silbón, uma pequena ave patagônica capaz de voar milhares de quilômetros.
O estudo registrou pela primeira vez como esta espécie realiza sua migração entre as florestas da Patagônia argentina e chilena e diferentes regiões do Brasil. Os dados revelaram voos noturnos de até oito horas contínuas e, em um caso extremo, quase 29 horas seguidas sem tocar o solo.
A pesquisa foi desenvolvida por especialistas do Centro de Pesquisa Esquel de Montanha e Estepe Patagônica, pertencente ao Conicet e à Universidade Nacional da Patagônia San Juan Bosco, junto com cientistas da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos.

Uma travessia aérea de mais de 6.000 quilômetros
O fiofío silbón realiza uma das viagens migratórias mais extensas entre as aves pequenas da América do Sul. Durante o inverno austral, abandona a Patagônia e se desloca para o norte do Brasil, onde encontra melhores condições de alimento e clima.
Depois, entre setembro e novembro, retorna novamente ao sul para reproduzir-se nas florestas patagônicas. Lá, alimenta seus filhotes principalmente com frutos de calafate e insetos presentes na região.
Para estudar seus movimentos, os pesquisadores colocaram pequenos dispositivos chamados BitTags em exemplares capturados em Chubut. Os sensores registravam atividade física e temperatura a cada cinco minutos, permitindo reconstruir o comportamento da ave durante toda a migração.
Os resultados mostraram que o fiofío voa principalmente à noite. Além disso, alterna jornadas intensas de voo com períodos de descanso que podem se estender entre quatro e cinco dias antes de continuar o percurso.
Uma espécie chave para os ecossistemas sul-americanos
O fiofío silbón, cujo nome científico é Elaenia chilensis, pesa menos de 20 gramas e cabe na palma de uma mão. Apesar de seu tamanho reduzido, cumpre um papel importante nos ecossistemas onde habita.
Ao se alimentar de frutas e insetos, contribui tanto para o controle natural de artrópodes quanto para a dispersão de sementes em florestas e áreas selvagens. Isso favorece a regeneração vegetal e a manutenção da biodiversidade em diferentes regiões da América do Sul.
Além disso, sua migração conecta ecossistemas muito diferentes, desde as florestas patagônicas até savanas e selvas brasileiras. Essa capacidade transforma as aves migratórias em indicadores ambientais fundamentais para medir a saúde dos habitats naturais.
Por outro lado, os cientistas consideram que compreender esses deslocamentos é crucial diante do avanço das mudanças climáticas e da perda de ambientes naturais que afetam as rotas migratórias tradicionais.

Tecnologia e conservação para entender as migrações
O estudo permitiu confirmar que novas tecnologias como os acelerômetros podem revolucionar o monitoramento de aves pequenas na América do Sul. Até agora, existiam poucos dados detalhados sobre migrações dentro do continente.
Um dos achados mais impressionantes foi o caso de um exemplar que permaneceu 28,9 horas contínuas em voo. Os registros de temperatura indicaram que a ave alcançou grande altura enquanto atravessava diferentes territórios sem parar.
Além disso, os pesquisadores acreditam que o fiofío poderia priorizar a economia de energia acima da velocidade da viagem, uma estratégia diferente da observada em muitas espécies migratórias do hemisfério norte.
Assim, este pequeno pássaro patagônico não só expõe a enorme resistência das aves migratórias, mas também a necessidade urgente de proteger os ecossistemas que tornam possível um dos fenômenos naturais mais impressionantes do planeta.



