Os pinguins da Antártida estão adiantando até um mês sua temporada de reprodução e a drástica mudança preocupa os cientistas.
Assim aponta um novo estudo realizado sobre diferentes espécies, o qual culpa a mudança climática e o aumento das temperaturas globais por essas mudanças nos hábitos de vida da fauna.
Segundo a análise, dezenas de colônias de três espécies distintas chegaram às suas zonas de nidificação até 24 dias antes que há uma década.
Trata-se de uma transformação sem precedentes no comportamento reprodutivo dessas aves sentinelas do ecossistema antártico.
O estudo, publicado no Journal of Animal Ecology, revelou o fenômeno após analisar dados de 77 câmeras de vídeo instaladas em 37 colônias.
Em particular, os pesquisadores registraram que os pinguins de Adélia, barbicha e papua modificaram significativamente seus padrões de chegada aos locais de reprodução, adiantando a temporada de reprodução.
O adiantamento médio alcançou duas semanas, embora algumas populações de pinguins papua se anteciparam quase um mês completo.

Um termômetro revela a causa da mudança da temporada de reprodução dos pinguins
As câmeras armadilha implantadas desde 2011 incorporaram termômetros que registraram a temperatura em cada captura.
Esse design permitiu aos cientistas estabelecer uma correlação direta entre o aumento térmico e o adiantamento reprodutivo.
“Estudar os oceanos é uma tarefa muito difícil, e na Antártida logisticamente impossível pela quantidade de gelo”, explicou Ignacio Juárez, pesquisador da Universidade de Oxford e primeiro autor do trabalho.
Os dados mostraram que desde agosto as temperaturas subiram aceleradamente a cada ano.
Em outubro e novembro, meses cruciais para a temporada de reprodução dos pinguins, o aumento alcançou 0,41º por ano.
Em particular, o aquecimento nas colônias resultou até quatro vezes maior que no resto da Antártida, um elemento chave que modificou a temporada de reprodução dos pinguins.
Três espécies de pinguins com o mesmo padrão
Os pinguins de Adélia chegaram primeiro, por volta do 15 de outubro, adiantando sua chegada um dia por ano.
Depois, a espécie barbicha se apresentou perto do 20 de outubro, duas semanas antes que em anos anteriores.
Finalmente, os pinguins papua chegaram aproximadamente em 1 de novembro, com um adiantamento médio de 16 dias desde o início do monitoramento.
“Uma vez que você vê os pinguins no ninho e eles não se movem mais, esse é o dia que dizemos que começou a temporada de reprodução“, detalhou Juárez.

Além da chegada dos pinguins, o pesquisador destacou que todos os marcos posteriores da temporada de reprodução—postura, eclosão e criação—também se adiantaram proporcionalmente.
Cabe destacar que as 37 colônias estudadas cobrem praticamente todo o alcance geográfico dessas três espécies, o que torna a descoberta um fenômeno de escala continental.
As consequências do adiantamento da temporada de reprodução dos pinguins ainda são desconhecidas
Os cientistas ainda não determinaram se esse adiantamento reprodutivo representa uma adaptação ou simplesmente uma resposta forçada à mudança climática. A distinção é crucial para entender as implicações ecológicas do fenômeno.
Os especialistas também levaram em conta que o derretimento acelerado interfere com o bloom anual de microalgas, a base da cadeia alimentar antártica.
Esse processo também afeta o krill que consomem os pinguins e, posteriormente, a orcas e focas-leopardo, o que pode afetar seus hábitos.
“Dado que os pinguins são considerados um indicador da mudança climática, os resultados deste estudo têm implicações para as espécies de todo o planeta”, destacou Fiona Jones, coautora e pesquisadora em Oxford.
O adiantamento registrado é o maior documentado entre as aves e um dos mais extremos entre todos os seres vivos.
“Precisamos de um maior acompanhamento para compreender se esse avanço recorde na temporada de reprodução dos pinguins está afetando seu sucesso reprodutivo”, concluiu Jones.



