A Autoridade de Pesca e Vida Selvagem da Califórnia aprovou um plano de restauração na ilha de Santa Catalina, em frente à costa de Los Angeles, que prevê a eliminação progressiva de quase toda a população de veado-mula introduzida no século passado com fins cinegéticos.
A proposta, impulsionada pela organização sem fins lucrativos Catalina Island Conservancy, propõe destinar a carne obtida ao Programa de Recuperação do Condor da Califórnia, como fonte de alimento natural para esta espécie em perigo de extinção.
Debate sobre conservação e legitimidade
A decisão reabre um debate clássico na gestão de ilhas com fauna introduzida: até onde deve chegar a conservação quando a medida mais eficaz é também a mais questionada socialmente.
Catalina aplica há anos caça regulada e controle populacional, mas a Conservancy sustenta que o ritmo de extração não conseguiu frear a pressão sobre a vegetação nativa nem o avanço de plantas invasoras. Por isso, propõe-se passar de um controle anual para uma estratégia de erradicação total.
Estratégia de execução dos veados-mula
O plano aprovado descarta, pelo menos por enquanto, a opção mais polêmica: a caça a partir de helicópteros. Em vez disso, serão destacados especialistas em terra com rifles, sob protocolos de segurança, o que prolongará o processo durante vários anos.
Entre os argumentos oficiais figura também a redução do risco de incêndios florestais, já que a degradação do habitat favorece espécies pirófitas que aumentam a vulnerabilidade da paisagem.

Críticas e oposição social
A supervisora do condado de Los Angeles, Janice Hahn, qualificou o plano de “drástico” e “desumano” e pediu reconsiderar a autorização. Hahn advertiu que o desaparecimento repentino de um grande herbívoro poderia ter efeitos contraproducentes sobre o risco de fogo, ao deixar sem controle parte do matagal. Propôs alternativas como a realocação ou programas de controle reprodutivo, embora a Conservancy tenha replicado que essas opções apresentam limites práticos, sanitários e econômicos em um território insular.
A oposição cristalizou-se em campanhas públicas e petições para frear a erradicação, em uma coalizão que reúne sensibilidades animalistas e setores vinculados à caça recreativa. Para muitos residentes e visitantes, o veado integrou-se na “imagem” da ilha, embora não seja autóctone.
Argumentos a favor
Os defensores do plano o enquadram em uma lógica de restauração ecológica a longo prazo, semelhante à aplicada em outras ilhas do canal da Califórnia, onde a retirada de espécies introduzidas permitiu recuperar comunidades vegetais e melhorar as condições para a fauna endêmica. A Conservancy sustenta que a eliminação do veado é o trecho mais difícil, não só por sua complexidade logística, mas também pelo consenso social que requer.
Para amortecer o impacto, prevê-se uma última temporada de caça recreativa limitada a residentes no outono de 2026, antes de iniciar o desdobramento gradual do programa de erradicação.
Um sacrifício com propósito regional
A discussão de fundo não é unicamente sobre o “como”, mas sobre o “para quê”. O plano vincula a retirada do veado com a recuperação de habitats nativos e com o apoio à alimentação do condor californiano, uma espécie emblemática cuja sobrevivência depende de programas de manejo intensivo. Converter a extração em uma peça do engrenagem de recuperação do condor é, ao mesmo tempo, um argumento ecológico e uma mensagem política: um sacrifício local que alimenta uma conservação regional.
O caso de Santa Catalina reflete as tensões entre a conservação ecológica e a percepção social das espécies introduzidas. Enquanto os defensores do plano o veem como uma medida necessária para restaurar a biodiversidade e apoiar o condor californiano, os críticos o consideram um ato desumano e arriscado. A decisão final marcará um precedente na gestão de fauna exótica em ilhas e na forma de conciliar objetivos ambientais com sensibilidades sociais.



