Uma análise científica publicada na revista Nature Food revelou que o sistema alimentar global é insustentável: impulsiona a perda de biodiversidade, acelera a mudança climática e não garante a saúde da população mundial.
No entanto, a pesquisa propõe um caminho de transformação através da combinação de 23 medidas específicas em áreas como dieta, meios de subsistência e agricultura, com o objetivo de alinhar a produção de alimentos com a saúde pública, a inclusão social e a proteção ambiental.
Projeções para 2050
O estudo, liderado pelo Instituto de Pesquisa do Impacto Climático de Potsdam (PIK), utilizou simulações computacionais para projetar cenários futuros. Os resultados mostram que, se essas soluções forem aplicadas juntamente com mudanças em outros setores econômicos, seria possível cumprir a meta do Acordo de Paris de limitar o aquecimento global a 1,5 °C até meados do século. Isso não apenas frearia a mudança climática, mas também salvaria milhões de vidas e reduziria a poluição ambiental.
Os pesquisadores estimam que a aplicação dessas medidas permitiria recuperar 182 milhões de anos de vida perdidos por mortes evitáveis a cada ano, reduzir pela metade a poluição por nitrogênio e evitar que as políticas ecológicas aumentem a pobreza.
Riscos de manter as tendências atuais
As simulações alertam que, sem intervenções profundas, a obesidade mundial quase dobrará até 2050, passando de 848 para 1.461 milhões de pessoas, enquanto o número de pessoas com baixo peso mal descerá de 730 para 640 milhões. Também aumentarão as mortes prematuras vinculadas a uma má alimentação, elevando a perda de anos de vida de 279 para 335 milhões anuais.
O modelo mostra diferenças geográficas significativas: a obesidade predominará em regiões ricas e emergentes, enquanto o sul da África e o sudeste asiático enfrentarão a “dupla carga” de altos níveis de desnutrição e obesidade simultaneamente.

Impacto ambiental do sistema alimentar
O estudo aponta que a indústria alimentícia gera cerca de um terço das emissões globais de gases de efeito estufa, além de ser o principal motor da perda de biodiversidade e da poluição por fertilizantes.
Embora se projete uma leve queda nas emissões agrícolas até 2050, sem mudanças estruturais o aquecimento global superará os 2,05 °C em relação à era pré-industrial, afastando o mundo do objetivo do Acordo de Paris.
As 23 medidas propostas
O simulador computacional avançado MAgPIE permitiu calcular o impacto de 23 ações agrupadas em quatro áreas: dieta, meios de subsistência, biosfera e agricultura. Entre elas destacam-se:
- Mudanças na dieta: aumentar o consumo de leguminosas e vegetais, reduzir a carne e os alimentos processados.
- Meios de subsistência: garantir salários mínimos dignos no campo.
- Medidas ambientais: proteger áreas ricas em biodiversidade, restaurar zonas úmidas e usar fertilizantes de maneira mais eficiente.
- Agricultura: frear a expansão da fronteira agrícola e melhorar a gestão de recursos.
Os pesquisadores ressaltam que as medidas funcionam melhor quando aplicadas em conjunto, pois potencializam benefícios e reduzem efeitos colaterais. Por exemplo, uma dieta com menos produtos animais poderia afetar o emprego na pecuária, mas a conservação ambiental geraria novos postos de trabalho que compensariam parcialmente essa perda.
Benefícios sociais e econômicos
A combinação de todas as medidas dentro de um caminho de desenvolvimento sustentável permitiria reverter o deterioro ambiental, deter a degradação da biosfera e reduzir a pressão humana sobre os ecossistemas. Sob este cenário, a pobreza extrema global desceria para 25% do nível projetado sem mudanças, e a superfície terrestre protegida alcançaria o objetivo internacional de 30% até 2030.
O estudo prevê que, se a transformação do sistema alimentar for acompanhada de transições em energia, indústria e urbanismo, a probabilidade de limitar o aquecimento global a 1,5 °C seria de 38%, e de mantê-lo abaixo de 2 °C, de 91%. Além disso, a melhoria na equidade e no acesso justo aos recursos contribuiria para diminuir tanto a má nutrição quanto a desigualdade.
O relatório destaca que reduzir os recursos destinados à produção animal nas economias mais ricas liberaria capacidades e facilitaria dietas mais saudáveis e acessíveis. Ao mesmo tempo, adverte que a queda na demanda por trabalho agrícola exige políticas ativas de reconversão laboral.
Como destacou Hermann Lotze-Campen, coautor do estudo: “Com esta visão holística, que considera o clima, a saúde humana, o meio ambiente e a justiça social, contribuímos para o debate social e político cada vez mais intenso sobre o futuro dos nossos alimentos”.



