MIRA: o sistema argentino desenvolvido por pesquisadores da UNLP que antecipa a queda de lixo espacial

A expansão da atividade espacial traz consigo um problema cada vez mais preocupante: o lixo espacial. Satélites fora de serviço, restos de foguetes e fragmentos de antigas missões orbitam a Terra a velocidades superiores a 27.000 km/h, e em muitos casos acabam reingressando na atmosfera.

Atualmente estima-se que existam 1,2 milhões de fragmentos entre 1 e 10 cm orbitando o planeta, que em conjunto representam cerca de 16.200 toneladas de resíduos espaciais. No entanto, apenas cerca de 44.000 objetos podem ser monitorados de forma permanente a partir da Terra.

MIRA: inovação desde a UNLP

Pesquisadores da Universidade Nacional de La Plata (UNLP) desenvolveram MIRA (Monitoramento de Reingressos Atmosféricos), o primeiro sistema criado na América Latina para antecipar a queda de objetos espaciais e avaliar riscos associados.

O projeto foi apresentado na II Conferência Latino-Americana da Academia Internacional de Astronáutica (IAA) sobre Espaço e Sociedade, realizada em Salta, com participação de organismos como NASA, ESA, CONAE, CONICET e INVAP.

Uma abordagem interdisciplinar

O sistema foi projetado pelo Centro Interdisciplinar de Estudos Espaciais (CIEE) da UNLP, com uma equipe integrada por especialistas em:

  • Engenharia aeroespacial.
  • Ciência de dados.
  • Direito espacial.
  • Estudos ambientais.
  • Engenharia de materiais.

MIRA combina monitoramento orbital, análise de dados, modelagem matemática e avaliação de riscos para estimar quando e onde poderiam cair restos espaciais.

Alertas precoces e gestão de riscos

A plataforma integra informações de bases de dados internacionais e classifica os objetos segundo tamanho, órbita e nível de risco. Com esses dados, gera modelos que simulam trajetórias de descida e possíveis zonas de impacto.

Quando detecta um reingresso significativo, MIRA pode elaborar alertas precoces para organismos de proteção civil, autoridades aeronáuticas e áreas de gestão de emergências.

lixo espacial
Pesquisadores da UNLP desenvolveram MIRA, o primeiro sistema latino-americano para antecipar reingressos de lixo espacial.

Mais que engenharia

Um dos aportes chave de MIRA é que não se limita ao aspecto técnico. Incorpora também uma visão jurídica, ambiental e de política pública, reconhecendo que o lixo espacial é um desafio global de governança.

Embora a maioria dos resíduos se desintegre ao atravessar a atmosfera, alguns componentes —como tanques de combustível e estruturas metálicas— podem sobreviver e alcançar a superfície terrestre.

Além disso, estudos internacionais analisam o impacto ambiental dos reingressos, já que liberam partículas metálicas e compostos químicos em camadas altas da atmosfera.

Tendência na América Latina

Os especialistas alertam que nos últimos cinco anos foram registrados mais reingressos sobre a América Latina do que nos quinze anteriores, uma tendência vinculada ao crescimento de lançamentos e constelações de satélites.

Isso reforça a relevância de contar com sistemas regionais como MIRA, capazes de antecipar riscos e fornecer informações estratégicas para a proteção civil e a conservação ambiental.

MIRA marca um marco científico e tecnológico para a América Latina. Desde La Plata, pesquisadores argentinos oferecem uma ferramenta que combina ciência, direito e ambiente para enfrentar um problema global: o lixo espacial.

Seu desenvolvimento demonstra que a região pode ser protagonista na construção de soluções inovadoras para os desafios do futuro.

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