Em 2021, pesquisadores liberaram 500 tartarugas de esporas africanas (Centrochelys sulcata) no extremo sul do Saara.
O que começou como um programa de conservação animal acabou transformando a geografia do local. Cinco anos depois, os satélites captaram manchas verdes onde antes havia apenas areia endurecida.
Como agem as tartarugas
As tartarugas, de mais de 100 quilos, cavaram tocas de até 15 metros para sobreviver ao calor extremo. Este comportamento natural teve efeitos ecológicos surpreendentes:
- Engenharia do solo: ao romper a crosta superficial, permitiram que a água da chuva penetrasse e fosse retida no subsolo.
- Germinação de sementes: a umidade favoreceu a ativação de sementes latentes, gerando vegetação visível até mesmo do espaço.
- Microrrefúgios: as tocas criaram microclimas que atraíram insetos, aves e pequenos vertebrados.
- Dispersão de sementes: ao se alimentarem de vegetação escassa e se moverem pelo território, as tartarugas dispersaram sementes através de seus excrementos.
Impacto ecológico
Este processo de recuperação ocorreu sem maquinaria pesada, irrigação ou produtos químicos. A organização SOS gerencia programas de liberação no Senegal desde 1992, alcançando taxas de sobrevivência superiores a 80%.
A UICN confirmou que as tartarugas Sulcata atuam como engenheiras de ecossistemas, essenciais para combater a desertificação.
Biodiversidade em expansão
As tocas não só beneficiam as plantas, mas também servem como refúgios vitais para outras espécies. Desta forma, as tartarugas contribuem para:
- Aumentar a biodiversidade em regiões áridas.
- Manter o equilíbrio de pastagens através de seu pastoreio constante.
- Proteger espécies associadas que dependem da vegetação e dos microclimas gerados.

Estado de conservação
Apesar de sua capacidade regeneradora, a espécie permanece em estado vulnerável. A caça, a perda de habitat e as mudanças climáticas reduziram suas populações em países como Mali e Burkina Faso.
O sucesso dos pontos verdes depende de que os animais sobrevivam tempo suficiente para manter seus túneis ativos.
Programas internacionais
A reintrodução de tartarugas Sulcata em países como Senegal busca recuperar populações e restaurar ecossistemas. Esses programas demonstram como a conservação animal pode ter um impacto direto na regeneração ambiental e na luta contra a desertificação.
A liberação de tartarugas africanas no Saara é um exemplo extraordinário de como a natureza pode ser aliada na restauração de ecossistemas. Ao atuar como engenheiras do solo, essas tartarugas transformam o deserto em um espaço capaz de reter água, germinar sementes e atrair vida.
Seu papel é vital para o futuro do Sahel e para demonstrar que a conservação animal pode ser também uma estratégia de resiliência climática.



