O Senado da Argentina enfrenta duras críticas de cientistas e ambientalistas pelo projeto de reforma da Lei de Geleiras

Um amplo espectro de especialistas, instituições científicas e organizações civis manifestaram seu rotundo repúdio à proposta do Executivo que busca a reforma da Lei de Geleiras e modificar a Lei 26.639, norma que estabelece os pressupostos mínimos para resguardar as geleiras e o entorno periglacial.

Essa postura foi exposta durante o plenário das comissões de Mineração, Energia e Combustíveis, e de Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do Senado. Apesar das objeções, o oficialismo conseguiu emitir parecer após um tratamento acelerado de apenas 48 horas.

No entanto, foi confirmado que o debate no recinto não será no dia 26 de dezembro, como se previa originalmente, mas será adiado para os primeiros dias de fevereiro.

No encontro realizado no Salão Arturo Illia, os especialistas concordaram que o projeto governamental altera a estrutura do atual sistema de proteção.

glaciares andinos
geleiras andinas

Sustentaram que a reforma fragmenta a preservação de recursos estratégicos como a água e enfraquece o padrão nacional de pressupostos mínimos. Os expositores alertaram que uma mudança dessa natureza representa um retrocesso no direito ambiental, resultando contraproducente frente a uma crise hídrica e climática que demanda políticas mais rigorosas.

Sobre esse ponto, Andrés Nápoli, à frente da Fundação Ambiente e Recursos Naturais (FARN), explicou que a reforma opera sob dois eixos críticos: “Em primeira instância, reduz a superfície protegida —que hoje representa apenas 0,21% do país— para viabilizar a megamineria em zonas de alta montanha atualmente restritas. Em segundo lugar, delega às províncias a potestade de escolher quais geleiras proteger, rompendo a uniformidade de resguardo ambiental que manda a Constituição Nacional”.

Por sua vez, Agostina Rossi Serra, representante da Greenpeace Argentina, sublinhou que diante do aumento dos riscos ambientais as leis deveriam se fortalecer. Classificou como “cientificamente errônea” a premissa de que apenas certas partes do ambiente periglacial merecem proteção, acrescentando que “as geleiras não são obstáculos, mas elementos vitais contra a mudança climática“.

As entidades advertiram que a meta do projeto não é otimizar o cuidado das fontes hídricas, mas satisfazer os requerimentos das companhias mineradoras, algo que, segundo indicaram, se desprende dos fundamentos da própria iniciativa.

Nessa mesma linha, Enrique Viale, titular da Associação Argentina de Advogados Ambientalistas, recriminou aos legisladores que o projeto destrói a estrutura constitucional dos pressupostos mínimos. Questionou com preocupação se esse precedente abriria a porta para desproteger florestas, rios ou mesmo alterar a Lei Geral do Ambiente.

Além disso, questionou-se a falta de pluralidade no debate e a rapidez do parecer. As organizações apontaram como uma irregularidade grave que não se realizassem consultas técnicas prévias com especialistas para a redação da proposta.

Desde a Fundação Vida Silvestre Argentina, seu diretor Manuel Jaramillo qualificou como “inadmissível” que não se tenha consultado o IANIGLA, organismo científico chave e responsável pelo Inventário Nacional de Geleiras. Jaramillo afirmou que “embora a mineração responsável seja necessária, não pode ser realizada sobre áreas de geleiras ou periglaciais“, criticando que se tenha avançado com o parecer ignorando as falhas técnicas denunciadas.

Eugenia Testa, do Círculo de Políticas Ambientais (CPA), acrescentou que o processo legislativo evidencia uma “captura” das políticas públicas por parte de interesses econômicos. Segundo Testa, o setor minerador influenciou diretamente no projeto através de um bloco de governadores, priorizando um benefício particular sobre uma política de Estado de mais de 15 anos.

Finalmente, Hernán Casañas, diretor de Aves Argentinas, argumentou que os investidores sérios não buscam uma “liberdade absoluta“, mas sim certeza e padrões altos. “O raciocínio econômico do projeto é inverso: os investimentos mais importantes fluem para nações com maiores exigências ambientais”, sustentou.

Segundo a análise das organizações, a reforma pretende forçar a legislação geral para que se encaixe com projetos mineradores específicos que hoje são inviáveis legalmente. Advertiram que, longe de dar segurança jurídica, isso gerará mais conflitos normativos e enfraquecerá a licença social das empresas.

Ao concluir sua exposição, os palestrantes instaram a Câmara Alta a não aprovar uma reforma que põe em perigo a segurança hídrica e viola princípios constitucionais. “Diante da escassez de água, retroceder na proteção das geleiras é ilegal e irresponsável. A Lei de Geleiras deve ser respeitada em sua integridade, não esvaziada de conteúdo”, sentenciaram.

Na reunião participaram instituições como FARN, Aves Argentinas, Greenpeace, CPA, AAAA e Vida Silvestre. Também estiveram presentes Pablo Villagra (diretor do IANIGLA), especialistas do CONICET como Gabriela González Trilla e Laura Isla Rafaele, e representantes das câmaras mineradoras CAEM e CAPMIN.

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