O governo argentino avança na licitação internacional para conceder por 25 anos a dragagem, balizamento e administração logística do rio Paraná, o mais longo do país. O objetivo é transformá-lo em uma rodovia fluvial para grandes navios de ultramar, capazes de transportar até 80.000 toneladas de carga.
Este corredor comercial atravessa cinco países (Brasil, Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruguai) e abrange cerca de 3.400 km navegáveis. A maior extensão corresponde ao Paraná em território argentino, onde se busca aumentar a profundidade do leito de 10 para 13 metros.
Riscos ambientais e sociais
Especialistas alertam que a dragagem e a artificialização do rio geram:
- Danos irreparáveis em áreas úmidas e ecossistemas ribeirinhos.
- Remoção de sedimentos contaminados que afetam fauna e flora.
- Erosão de costas e ilhas, com risco para residências, pontes e terras agrícolas.
- Aumento de inundações pela aceleração do fluxo hídrico.
O Paraná abastece de água potável 14 milhões de pessoas e constitui a maior fonte do país. Alterar sua dinâmica compromete a segurança hídrica e a resiliência frente a secas e inundações.
Contexto climático
Entre 2019 e 2024, a Bacia do Prata atravessou uma das piores secas em 80 anos, vinculada às mudanças climáticas e ao desmatamento amazônico. Relatórios do IPCC indicam que Buenos Aires e Santa Fé são áreas críticas, com crises hídricas cada vez mais frequentes. Neste cenário, especialistas classificam a artificialização do Paraná como um “ecocídio”.

Conflitos políticos e legais
O projeto não cumpre normas como o Acordo de Escazú, que garante acesso à informação e participação cidadã em assuntos ambientais. Além disso, afeta bens naturais provinciais, gerando conflitos de competências.
A licitação revive o modelo dos anos 90, quando Hidrovía S.A. (Jan De Nul e Emepa) operou o sistema. Após o vencimento em 2021, o Estado assumiu o controle interino, mas em 2024 o governo de Javier Milei retomou a privatização, com cláusulas que favorecem empresas europeias e sem estudos de impacto ambiental.
Valor ecológico das áreas úmidas
As áreas úmidas do rio Paraná cumprem funções essenciais:
- Limpam águas contaminadas.
- Previnem inundações graças à sua capacidade de absorção.
- Armazenam água doce em épocas de seca.
- Abrigam grande biodiversidade de fauna e flora.
A dragagem ameaça esses serviços ecossistêmicos e dificulta a formação de novas ilhas no delta, um território em expansão por acúmulo de sedimentos.
Dimensão histórica e cultural
O Paraná tem sido cenário estratégico desde a resistência indígena até a independência argentina. Controlar o rio significava controlar comércio, abastecimento e soberania territorial. Hoje, o projeto o redefine como uma hidrovia comercial, subordinando sua dinâmica natural à lógica extrativista global.
A privatização do Paraná coloca um dilema entre o modelo extrativista e a soberania hídrica. Transformá-lo em rodovia fluvial implica alterar seus ciclos, acelerar sua degradação e comprometer sua capacidade de sustentar a vida. Frente a crises climáticas cada vez mais intensas, especialistas e comunidades alertam que preservar o rio como organismo vivo é vital para o futuro ambiental e social da Argentina.



