A Corte Internacional de Justiça (CIJ) marcou um marco sem precedentes na história do direito internacional: pela primeira vez, determinou que os Estados têm a obrigação legal de proteger o sistema climático do planeta. Em um parecer consultivo que não é vinculativo, mas tem grande peso jurídico e moral, ficou esclarecido que os danos às comunidades e ecossistemas devem ser compensados ou restaurados.
Este pronunciamento histórico reconhece o vínculo estreito entre um clima estável e ecossistemas saudáveis, e estabelece que as nações têm um dever de diligência devida para evitar impactos por emissões de gases de efeito estufa. A decisão também reforça a responsabilidade dos governos de agir em benefício das gerações atuais e futuras.
A iniciativa foi impulsionada por jovens estudantes de direito do Pacífico e apoiada por 132 países, muitos deles altamente vulneráveis às mudanças climáticas, como Vanuatu e Tuvalu. Embora esses Estados contribuam pouco para as emissões globais, sofrem diretamente as consequências do aquecimento.
O parecer consultivo foi lido por mais de duas horas no Palácio da Paz em Haia e baseia-se em 91 apresentações escritas, o número mais alto na história da CIJ.

Um novo quadro para a ação climática
Esta decisão chega em um momento crucial, quando o planeta enfrenta crises sobrepostas: mudanças climáticas, perda de biodiversidade e degradação ambiental. Ao estabelecer parâmetros legais claros, a Corte fornece uma ferramenta crucial para exigir ações mais ambiciosas e eficazes por parte dos Estados.
A decisão da CIJ também tem implicações para o setor privado. Envia uma mensagem clara: a ação climática deve ser abrangente e focada na proteção da natureza. Os ecossistemas são aliados indispensáveis na luta contra as mudanças climáticas, pois capturam aproximadamente metade das emissões globais.
No entanto, esses ecossistemas também estão em perigo. Florestas, pântanos, oceanos e solos estão sendo degradados a um ritmo alarmante, o que reduz sua capacidade de amortecer os impactos climáticos. Por isso, esta decisão destaca a urgência de restaurar e conservar a natureza como parte essencial de qualquer política climática.
Com a atenção voltada para a COP30 no Brasil, a comunidade internacional terá que adaptar seus planos e compromissos. Este novo quadro jurídico pode servir como guia para revisar políticas nacionais e implementar ações alinhadas com os direitos da natureza e o bem-estar das pessoas.
O que são as contas climáticas e para que servem?
As contas climáticas são ferramentas estatísticas que permitem medir e analisar o impacto das atividades humanas sobre o clima. São projetadas para integrar dados econômicos, ambientais e sociais a fim de avaliar como os setores produtivos contribuem para as emissões de gases de efeito estufa.
Através dessas contas, os governos podem identificar as fontes mais relevantes de emissões, acompanhar sua evolução ao longo do tempo e avaliar a eficácia das políticas públicas. Também são fundamentais para projetar cenários futuros e desenvolver estratégias de mitigação e adaptação.
Além disso, as contas climáticas permitem atribuir responsabilidades de maneira mais justa e transparente. Ao quantificar os custos ambientais de certos modelos produtivos, promove-se uma economia mais sustentável e facilita a prestação de contas a organizações internacionais.

Um apelo à transformação
A decisão da Corte Internacional de Justiça coloca o foco nas obrigações dos Estados diante da crise climática, mas também oferece uma oportunidade: repensar nossas formas de habitar o planeta. Incorporar instrumentos como as contas climáticas e proteger a natureza não são apenas opções éticas, mas passos essenciais para garantir um futuro habitável.
A resposta dos governos será fundamental. Revisar planos nacionais, aumentar a ambição climática e priorizar a restauração ecológica são medidas urgentes. O planeta, as comunidades mais vulneráveis e todas as formas de vida precisam de ações coerentes com o novo paradigma legal estabelecido pela CIJ.



