Nesta terça-feira, o Governo oficializou a convocação para sessões extraordinárias no Congresso e, entre os temas, incluiu uma revisão da Lei de Geleiras para sua flexibilização.
Embora por enquanto o Executivo não tenha apresentado o projeto, incluiu a revisão da Lei N° 26.639 na convocação para extraordinárias, que se desenvolverão até 30 de dezembro.
Na verdade, o Executivo está prestes a apresentar um “Projeto de Lei de adequação do Regime de Orçamentos Mínimos para a Preservação das Geleiras e do Ambiente Periglacial“.
Este chegaria ao Congresso esta semana e, para ser aprovado, deverá passar com luz verde tanto pela Câmara dos Deputados quanto pelo Senado.
Em linha com o que adiantou o presidente Javier Milei, o plano é redefinir o conceito de “ambiente periglacial” e transferir sua regulamentação para as províncias.
O objetivo final é flexibilizar as normas que hoje protegem as geleiras no país em busca de potencializarinvestimentos minerais em zonas montanhosas ricas em cobre, lítio e outros minerais estratégicos.
Por isso, a iniciativa gera um intenso debate ambiental entre aqueles que veem uma oportunidade para o desenvolvimento mineral e aqueles que alertam sobre os riscos hídricos.

O que propõe a flexibilização da Lei de Geleiras impulsionada pelo Executivo
Segundo os promotores da flexibilização, a definição vigente de “periglacial” na Lei de Geleiras resulta demasiado ampla e imprecisa.
Essa “vaguidade” permite que demandas judiciais ou ambientais interrompam projetos produtivos mesmo quando não há geleiras propriamente ditas.
A reforma propõe então devolver às províncias a capacidade de definir quais áreas devem continuar protegidas segundo seus estudos técnicos locais.
Dessa forma, cada jurisdição determinaria suas próprias zonas de proteção ambiental.
A mudança busca impulsionar o plano de atração de “grandes investimentos” do Executivo, especialmente em regiões com potencial mineral e hidrocarburífero que atualmente enfrentam restrições pela normativa nacional.
Posições opostas: províncias mineradoras vs. ambientalistas
Os governos provinciais da chamada Mesa do Cobre —Mendoza, San Juan, Catamarca e Jujuy— apoiam a iniciativa.
Esses funcionários consideram que determinar suas próprias áreas periglaciais representa um ato de “federalismo ambiental“.
Desde essas legislaturas provinciais, a mudança representa uma oportunidade para atrair capital, gerar emprego e dinamizar economias locais após anos de obstáculos vinculados à normativa atual.
No entanto, mais de 25 organizações ambientalistas, científicas e sociais divulgaram um comunicado alertando sobre os riscos de modificar esta norma.

Para Greenpeace, a reforma implica um “retrocesso ambiental” de magnitude sistemática e aponta que “sem geleiras não há água”.
O especialista em glaciologia do CONICET, Lucas Ruiz, adverte que existem geleiras visíveis e “ocultas” —como as de escombros ou periglaciais— que cumprem funções hidrológicas.
Por isso, relaxar a proteção seria “uma ameaça direta” para essas funções vitais.
O que diz a Lei de Geleiras vigente e quais são os riscos de sua flexibilização
A Lei 26.639 define geleiras como “toda massa de gelo perene, estável ou em lento deslocamento”.
Considera periglacial as zonas de média e alta montanha onde solos congelados atuam como reservas de água doce.
Sob este conceito, estão proibidas as atividades minerais, hidrocarburíferas, a construção de infraestrutura e o tratamento de substâncias tóxicas nessas zonas protegidas.
Mas, agora, a flexibilização da Lei de Geleiras que o Governo busca aprovar em sessões extraordinárias permitiria às províncias redefinir essas zonas.
Os críticos da reforma alertam sobre riscos potenciais que incluem:
- Perda de reservas de água a médio e longo prazo por habilitação de zonas protegidas para mineração
- Alteração do regime hidrológico com caudais mais erráticos e menor armazenamento natural
- Risco ecológico para a biodiversidade de fauna, flora e ecossistemas aquáticos
- Impacto no turismo sustentável de zonas como o Parque Nacional Los Glaciares

Santa Cruz: o caso especial com dupla proteção
Santa Cruz mantém sua própria normativa provincial —Lei 3123— que protege geleiras e periglaciais como reservas estratégicas de água.
Esta jurisdição proíbe atividades extrativas nessas zonas com legislação local.
Os deputados de Unión por la Patria em Santa Cruz alertaram que modificar a lei nacional “representa uma ameaça direta à democracia, ao equilíbrio ecológico e aos direitos das futuras gerações“.
Se a lei nacional mudar, abre-se um cenário de redefinição de mapas, permissões e critérios.
Isso gera incerteza sobre o futuro de bacias, usos do solo e conservação ambiental na província.
O debate no Congresso definirá se a Argentina transita de um modelo centralizado e nacional para um descentralizado e provincial.
A discussão promete se estender durante as sessões extraordinárias de dezembro com posições claramente opostas.



