Brasil cede à reivindicação indígena e revoga o decreto que permitia a construção de portos nos rios da Amazônia

O governo do Brasil revogou esta semana um decreto que permitia a construção de portos nos rios do Amazonas para o transporte de grãos.

A decisão veio após mais de um mês de protestos indígenas que escalaram até a ocupação de um terminal da empresa Cargill.

O decreto, assinado em agosto pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, designava os principais rios amazônicos como prioritários para a navegação de carga e a expansão de portos privados.

As comunidades consideram essas vias fluviais vitais para seu modo de vida e se opõem à dragagem que implica esse tipo de desenvolvimento.

Red de esclavitud Río Amazonas

Os protestos indígenas que forçaram a decisão

Mais de 1000 indígenas de 15 comunidades acamparam durante semanas em protesto pelo decreto que permitia os portos nos rios do Amazonas.

A maioria se instalou em frente ao terminal da empresa agroindustrial americana Cargill, na cidade de Santarém, estado do Pará.

Os protestos continuaram mesmo depois que o governo anunciou, duas semanas antes, a suspensão da dragagem no rio Tapajós, afluente do Amazonas.

No fim de semana anterior ao anúncio, os manifestantes até entraram e ocuparam o terminal, o que aumentou a pressão sobre as autoridades.

“Podem nos criminalizar, mas nós sabemos que o rio é nosso, a floresta é nossa“, disse Alessandra Korap, líder do povo munduruku, das instalações da Cargill.

Após esses incidentes, o governo do Brasil finalmente decidiu revogar o decreto que permitia a instalação de portos nos rios do Amazonas.

O ministro da Secretaria Geral da Presidência, Guilherme Boulos, confirmou a medida em coletiva de imprensa em Brasília: “Foi assinada a decisão para revogar o decreto”.

“Este governo leva a escuta até o ponto de retroceder em uma decisão própria por compreender a posição desses povos indígenas“, acrescentou Boulos.

Brasil cede ante el reclamo indígena y revoca el decreto que habilitaba la construcción de puertos en los ríos del Amazonas (EFE/Andre Borges)
Brasil cede ante o pedido indígena e revoga o decreto que permitia a construção de portos nos rios do Amazonas (EFE/Andre Borges)

O que implicava o decreto que revoga a instalação de portos nos rios do Amazonas

O decreto para estabelecer portos gerou rejeição porque permitia uma série de intervenções nos rios do Amazonas com impacto direto sobre os ecossistemas e comunidades da região:

  • Expansão de portos privados sobre os principais rios amazônicos
  • Dragagem de rios para facilitar a navegação de embarcações de carga
  • Designação dessas vias fluviais como prioritárias para o transporte de grãos
  • Maior presença da agroindústria em territórios sensíveis

A organização Amazon Watch informou que durante os protestos os manifestantes chegaram a impedir a entrada e saída de caminhões do terminal da Cargill.

O Brasil é o principal exportador mundial de soja e milho, e a expansão de portos fluviais na Amazônia visa reduzir os custos de transporte dessa produção.

Os críticos apontaram que o projeto representava um choque entre o desenvolvimento econômico e o compromisso ambiental que Lula publicitou em diferentes fóruns internacionais.

Os indígenas já haviam manifestado sua rejeição ao decreto na conferência climática COP30 da ONU, realizada em novembro no Brasil.

Em frente aos armazéns da Cargill, manifestantes com cocares de penas celebraram o anúncio. “Ganhamos essa luta. Isso mostra que a vida não se vende, o rio não tem preço, não é negociável”, afirmou Maria Leusa, outra líder munduruku.

Alessandra Korap anunciou que as comunidades continuarão “resistindo” e convocou novos protestos para terça-feira em Brasília, São Paulo e outras cidades, contra a privatização dos rios amazônicos.

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