Repatriação e diplomacia ambiental: o caso do gorila Zeytin, vítima de contrabando internacional

O recente resgate de um bebê gorila, vítima do contrabando internacional, nos coloca uma questão urgente sobre nosso compromisso ambiental: o que devemos fazer a longo prazo com os animais apreendidos para garantir seu bem-estar e a conservação da espécie?

O tráfico ilícito de vida selvagem não constitui um episódio isolado, mas faz parte essencial do crime organizado transnacional e representa uma das atividades ilícitas mais lucrativas a nível mundial, juntamente com o tráfico de armas, drogas e pessoas. Esta atividade não só tem consequências devastadoras para a natureza, mas também constitui um enorme trauma físico e emocional para os indivíduos arrancados violentamente de seu grupo e transportados sem a menor precaução sanitária, o que gera riscos zoonóticos.

Atualmente, essa estrutura criminosa alcançou um nível extremamente sofisticado, empregando rotas logísticas complexas e aproveitando lacunas legislativas para operar através das fronteiras. A luta contra esse fenômeno exige uma cooperação sólida entre diversos atores internacionais e a implementação de políticas de Estado claras, capazes de coordenar de maneira harmônica a vigilância fronteiriça, a perseguição penal e a reparação do dano ecológico. Neste contexto complexo, o caso do bebê gorila Zeytin, como foi batizado, adquire uma relevância notável.

Às vésperas do Natal de 2024, as autoridades do aeroporto de Istambul interceptaram este bebê gorila, de apenas cinco meses de idade, oculto em uma caixa dentro de uma carga de coelhos, em um voo procedente da Nigéria com destino à Tailândia. Vestido com uma camiseta infantil e com um olhar assustado e desamparado, sua imagem se viralizou rapidamente nos meios internacionais.

Gorila Zeytin: contrabando internacional

Turquia, devido à sua posição estratégica indiscutível como ponte geográfica e comercial entre a África e a Ásia, enfrenta o desafio de gerir um número crescente de casos de tráfico ilegal de fauna selvagem. Ao resgatar Zeytin, as autoridades aduaneiras demonstraram uma ação inicial exemplar e reafirmaram seu papel crucial como país de trânsito.

No entanto, após receber atenção para sua estabilização em um zoológico privado de Istambul, Zeytin permanece retido e isolado nesse estabelecimento há quinze meses. Desde o final do ano passado, quando as autoridades turcas descartaram a possibilidade de repatriar o bebê para a Nigéria, a difusão de informações oficiais e dos comoventes vídeos que anteriormente inundavam as redes sociais cessou. Esta falta de resolução, apesar de existir uma proposta elaborada por organizações especializadas, gerou uma séria preocupação na comunidade científica internacional e nas organizações da sociedade civil.

O tráfico ilícito de espécies protegidas opera mediante uma rede criminosa que envolve inexoravelmente três atores: o país de origem, o de trânsito e o de destino final. Para combater e desarticular este flagelo, a apreensão, embora essencial, não basta. É indispensável impulsionar investigações que determinem os autores materiais e intelectuais do delito e, em coordenação com as autoridades de cada país envolvido, prosseguir com as atuações legais que conduzam à desarticulação dessas redes criminosas. Junto a esse esforço, é imperativo fechar o círculo assegurando um destino ético e biológico adequado para o indivíduo resgatado.

A ciência e os padrões internacionais estabelecem diretrizes claras sobre esta questão. Tanto as disposições da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas de Fauna e Flora Selvagens (CITES) como os protocolos da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) recomendam enfaticamente a repatriação de animais vivos apreendidos à sua zona de origem, quando não for possível determinar o país de origem, sempre que existam infraestruturas adequadas para continuar com sua reabilitação.

No continente africano, há mais de vinte anos, existem centros especializados na reabilitação de primatas, especialmente de grandes símios. Esses centros oferecem ambientes naturais e consideram indivíduos de sua mesma espécie para formar os grupos necessários para seu desenvolvimento social e cognitivo complexo. Além disso, desenvolveram uma experiência considerável em casos bem-sucedidos de retorno à natureza em áreas protegidas, especificamente com gorilas ocidentais de terras baixas, como o de Zeytin.

Este consenso científico conta atualmente com um sólido respaldo diplomático. Efetivamente, em 2025, a Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU) adotou, pela primeira vez e mediante votação, a Resolução A/RES/79/313 sobre a luta contra o tráfico ilícito. Em seu parágrafo 41, este documento histórico incentiva os Estados membros a fortalecer a cooperação internacional para facilitar a repatriação oportuna dos animais vivos objeto de comércio ilegal, de conformidade com a Convenção CITES. É fundamental destacar que, dos 157 votos favoráveis, essa resolução contou com o apoio da Turquia e Argentina.

O caso de Zeytin constitui uma oportunidade inestimável para promover uma diplomacia ambiental verdadeiramente eficiente, responsável e coerente. Converter uma operação aduaneira bem-sucedida em um resultado ecologicamente sustentável exige que os países de trânsito concluam seu trabalho facilitando o retorno à sua região de origem dos indivíduos apreendidos, honrando assim os compromissos internacionais e contribuindo para a recuperação da biodiversidade global.

Por: Susana Pataro, diplomata de carreira, embaixadora (J), foi representante da Argentina ante a UNESCO e embaixadora na Nigéria. Atualmente, é membro do Conselho Diretivo do Instituto Jane Goodall Global.

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